GRACILIANO RAMOS: ARTISTA E CIDADÃO


Carlos Alberto Abel dos Santos

LANÇAMENTO DIA 20 DE SETEMBRO 07, no estande 225 APPERJ/OFICINA Editores, Rua "L", Pavilhão Azul, Riocentro, às 11:35h, durante a XIII Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, Rio/RJ.

A melhor informação acerca desse livro é o testemunho do grande escritor Ciro dos Anjos: “Leitura amena, despojada de terminologia pomposa e das teorizações obscuras que tanto obscurecem os trabalhos acadêmicos. A escrita é fluente, aliciante. Dá-nos uma imagem viva de Graciliano, leva-o a dialogar conosco, presentifica-o como e quando o conheci. Seu pessimismo. Sua rudeza. Mas seu caráter, sua firmeza, sua dignidade.”

Carlos Alberto dos Santos Abel é doutor em Letras Vernáculas (Literatura Brasileira), pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor aposentado pela Universidade de Brasília.

 

O VIOLEIRO COMUNISTA

CARLOS ALBERTO DOS SANTOS ABEL

Naquela tarde de setembro de 1973, o Estádio Nacional do Chile estava repleto. Arquibancadas lotadas de prisioneiros. Só se ouvia a voz dos guardas, a multidão, silenciosa, o vazio do medo e da desolação. O comandante mandou tocar o Hino Nacional.
Na estaca, no meio do campo, todos também se puseram de pé. Minto: um não se levantou. Permaneceu deitado. Já tinha levado muita porrada. Ouvidos os últimos acordes, um silêncio mortal, pesado. Até hoje, sinto aquele vácuo. – Sargento Sanches! Vá lá ao centro do campo e providencie, para que aquele safado que não se levantou ao som do Hino Nacional, pague por isso –. Arrastei-me pelo campo, depois de séculos, cheguei à estaca. Queria odiá-lo. Olhando aquela massa informe, aquela massa de carne fragilizada, torturada, minha raiva esvaiu-se. Aquilo não era mais um ser humano. Só uma chaga.
– Sanches – rugiu o comandante – estou esperando. – Ele é o tocador de violão? Ele é o violeiro comunista? Corte-lhe as mãos. Já! –. Peguei o sabre, encostei a mão direita do prisioneiro na estaca. O coitado não resistiu. De um golpe, cortei-a. O braço esquerdo estava pousado no chão, aproveitei e decepei-lhe a outra mão. O miserável berrou raivoso. Um urro lamentável e insultuoso. Desmaiou.
O comandante ordenou: ? Dê-lhe um tiro nos cornos ?. Encostei a pistola na sua testa e disparei. – Sanches, meus parabéns. Tu és um macho!
Passaram-se os anos. Voltou a democracia. Veio acompanhada de uma lei de anistia. Escapei de todos os meus crimes. E não foram poucos. Remorsos? Acho que não. Cumpri o meu dever. Se tivesse de matá-lo de novo? Matava de novo. Nós estávamos numa guerra contra o comunismo. Tivemos de matar um presidente socialista. Por que não um violonista comunista, mesmo sendo o maior músico do Chile?
Passo os dias em paz, no meio da multidão. Agora, quando escurece e fico sozinho comigo mesmo... o cotó volta, apontando-se os braços sem mãos. Tenho-o dentro de mim, em cada polegada de meu ser. Eu o matei de estalo. Ele me mata aos poucos.


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