App nº 450
Marcelo Moraes Caetano

É
carioca, pianista clássico, com prêmios no Brasil e no exterior,
tradutor de inglês, francês, alemão e escritor com vários
livros publicados, no Brasil, Estados Unidos, Suécia, França
e Inglaterra. Entre alguns de seus livros publicados, estão: "A
clara de ovo" (editora 7Letras, 2003), "Cemitério de Centauros"
(SENAI - FIRJAN, 2007, obra premiada como melhor livro de poesia inédita,
no concurso da Fábrica do Livro, durante a XIII Bienal Internacional
do Livro do Rio de Janeiro), "The white fast egg" (Pg Editors -
USA, 2009), Försiktighetsprincipen, Arbete, eller Konste Kentaurer Kyrkogård,
DMOZ , 2009 (Suécia), "Solidariedade" (ONU - UNESCO, 2005,
edição trilíngue, Brasil, França, Inglaterra),
"Educação" (ONU - UNESCO, 2006, edição
trilíngue, Brasil, França, Inglaterra), "Gramática
Reflexiva da Língua Portuguesa" (Editora Ferreira, 2009), "Romances
de entressafra" (Editora Vivali, 2005), "A humanidade na Arca de
Noé" (Editora Vivali, 2005), "Gramática para o Vestibular"
(Editora Elite - Maria Anézia, 2009), "Literatura Brasileira para
o Vestibular" (Editora Elite - Maria Anézia, 2009), "Redação
para o Vestibular" (Editora Elite - Maria Anézia, 2009). É
especialista em Educação e Tecnologia pela Universidade Federal
Fluminense, Mestrando em Estudos da Linguagem pela PUC - RIO e pesquisador
com dedicação exclusiva pelo CNPq.
(Fonte: Projeto Releituras: www.releituras.com)
URUGUAY-BRASIL - "El poeta, pianista y professor Marcelo
Moraes Caetano recibe el Prémio Sófocles - Medalla de Oro en
Literatura luso-hispano-americana 2010 por el conjunto de su obra en Montevideo,
febrero. Gabriel García Marquez, Prémio Nobel de Literatura,
dio el prémio a Marcelo Moraes Caetano, diciéndole que le gusta
mucho su trabajo artístico y intelectual." (Fuente: Diário
El País - URUGUAY)
Poemas de Marcelo Moraes Caetano
Rude poema
Para o Heitor Villa-Lobos
A prosa fala com a saliva
O poema fala com o sangue
A prosa ativa e desativa
O poema é sempre um bumerangue
A prosa especula
O poema é um espelho
A prosa com o tempo se azula
O poema é cada vez mais vermelho
A prosa diz alto ao coração
O poema também
A prosa conhece o alçapão
O poema não vive sem
A prosa é juventude
O poema é infância e velhice
A prosa nunca se desdisse
O poema é um paradoxo rude
A prosa tem certa sobriedade analítica
O poema é a total embriaguez sintética
A prosa possui uma régua altamente crítica
O poema afunda no barril da estética
A prosa é o poema esparramado
O poema é a prosa compacta
A prosa derrama poema de lado a lado
O poema é a semente da prosa, ainda intacta
A prosa tem cicatriz
O poema é ferida aberta
A prosa é uma cantora, uma atriz
O poema é um espectador alerta
A prosa consegue se calar
O poema, jamais
A prosa agarra-se ao cais
O poema desfaz-se no mar
Quintanares
Para o Mario Quintana e o Manuel Bandeira
Não se entretecem versos
Sem que se lhe peça licença.
Nenhum poeta ou prosador pensa
Em deixá-los sem vós, dispersos...
Sois mestre dos mares;
E, dos navios, almirante.
Que marujo ousa seguir avante
Sem a bênção dos Quintanares?
Nenhum poeta se engana.
Impossível é quem se confunda
Achando conseguir a profunda
Expressão longe de Mario Quintana.
O Novo Velho do Restelo
Ao Luiz Vaz de Camões
Mas um velho de aspecto sobre-humano,
Que ficava nas praças, entre a gente,
Fitou-nos com clareza e desengano,
E negou co´a cabeça e mais co´a mente;
Alto, o brado latino-americano
Se fez mais claro que a aurora vidente.
E nós, de ouvido aberto (e olhar estreito),
Capitalistas: já não tem mais jeito...
– “Ó glória
de comprar! Ó vã cobiça!
Desta vaidade a que chamamos Posses!
Podem chamar-se Bens! Também Divisa!
Aumentam tua sede! E como tosses!
Não sabes que não há maior premissa
Que a de calcular que, se tu não fosses
Tão rico, a Etiópia e Angola
Teriam mais comida e mais escola?
– “Besta inquietação
d´alma e da grana
Que resume tudo a Poder e Impérios!
Tão tolos, que não passa uma semana,
Sem que haja inúteis, fúteis, deletérios
Assassinatos! – Sim, porque é insana
A boca que não grita os casos sérios
Ocorrendo, em jornais, na própria vida,
A tanta gente pobre, desvalida!
– “Mas não! Queres
comprar! Comprar! Só isso!
O que causa esta fome, este vazio?
Talvez porque tu sejas tão submisso
Que nem discernes nada? És arredio?
Impõem sobre teus pés um precipício,
Mas te endividas, e o teu toque é frio?
Será que, na verdade, não tens medo
De que, sem posses, saibam teu segredo?”
Ave Maria!
Para a Irene
Maria das Graças acorda
cedinho na favela
estende as roupas na corda
e põe o feijão na panela
se veste e vai pro trabalho
desce devagarinho
o ônibus e o trem odeiam atalho
seguem um enorme caminho
Maria fica horas em pé
a roupa toda azul-clara
a bandeja nunca é solta
serve água, suco e café
quase à noite se prepara
o ônibus e o trem a levam de volta.
Eu assim
Para a Laisa Bloomfield
marcado, mas vivo
cicatrizado, mas compassivo
desarmado, mas imperativo
agraciado, mas ativo
enraizado, mas criativo
observado, mas furtivo
amado, mas esquivo
desnudado, mas permissivo
modificado, mas combativo
curado, mas com motivo
perenizado, mas ativo
canonizado, mas passivo
universalizado, mas nativo
unificado, mas multiplicativo
O corvo
Para a Elfriede Jelinek
Mas sobre o pálido busto de Palas
pousa o corvo e suas nigérrimas penas.
Despudoradamente iconoclasta,
não respeita a alvura casta de Atenas.
Entre outros gritos, palros e alvoroços,
entre algaravias grandes, pequenas...
Começam pouco a pouco, e às centenas
vêm úberes - náufragos e destroços...
O céu enegrecido, em prantos, clama:
"Retornai, ó desregradas criaturas!
Não vos queremos, ide, ó revoada!"
Eis que a fúria de Deus, por fim,
se inflama
faz com que o céu se azule nas alturas,
e não se escuta mais um pio. Nada .
Contato ao poeta: mmcaetano@hotmail.com